04/05/2012 15:35:23
Política Cafeeira: uma reflexão crítica
Por Mara Luiza Gonçalves Freitas O mineiro tradicional, do interior, quando precisa refletir sobre um assunto relevante, encosta num canto de parede, pega o seu canivete de estimação e um pedaço de fumo guardados estrategicamente em sua algibeira e fica horas à fio preparando um piteiro.
Por Mara Luiza Gonçalves Freitas
O mineiro tradicional, do interior, quando precisa refletir sobre um assunto relevante, encosta num canto de parede, pega o seu canivete de estimação e um pedaço de fumo guardados estrategicamente em sua algibeira e fica horas à fio preparando um piteiro. A princípio, dá impressão que ele está amuado, triste, distante. Depois, ele de um tempão, ele levanta um bocadinho a cabeça e diz: “pois é, né...”, e lá vem uma pérola.
Pois é, né.
Ontem aconteceu mais reunião do Conselho Deliberativo de Política Cafeeira. O mote, mais uma vez, para decidir o planejamento estratégico para a cafeicultura brasileira entre 2012 e 2015. A questão é que até hoje fico me questionando como um planejamento estratégico de um setor inteiro é construído numa parte de tarde, sem ouvir os interlocutores mais interessados: as pessoas que vivem efetivamente da cafeicultura. Isso é uma curiosidade dilacerante.
Exceto se essas reuniões tiverem o intuito de facilitar o trabalho do Departamento de Polícia Federal, já que os ‘inconfidentes’ estarão todos numa sala só, esse negócio de discutir o planejamento da cafeicultura do Brasil no estilo ‘receita minuto’ a portas fechadas, não passa de uma afronta à inteligência para ‘inglês ver’. Notem que no Brasil, estão sediadas as duas escolas de negócios que de acordo com o renomado jornal Financial Times estão entre as dez melhores do mundo. Uma delas, mineira, superou a Universidade de Harvard. Creio que nenhuma delas se habilita a construir um planejamento estratégico tão rápido, ainda que isso se converta numa indicação para o Guiness (pensando em marketing dos Cafés do Brasil, até que esta não é uma má ideia, na categoria de produção de Planejamento Estratégico Setorial mais rápido do planeta. Não defini ainda se podemos denominar este modelo de Ligeirinho ou Papaléguas).
Qualquer setor do governo realmente interessado em construir um planejamento estratégico sério, democraticamente orientado, promove seminários em reuniões nas regiões consideradas importantes, quando não em todo o país. Isso é gestão pública com ampla participação democrática o que calha muito bem para um país que tem nela, a Democracia, a força motriz para atingir os patamares de desenvolvimento percebidos atualmente. O Departamento Nacional do Café – DENAC tem entre suas atribuições, exercer este papel, que faria toda a diferença para a construção da sinergia setorial. A sexta economia do mundo não pode mais se curvar às reuniões de portas fechadas, que privilegiam os interesses de somente alguns.
Para realizar uma ação dessa natureza, há a necessidade de se criar seminários municipais, que gerarão os seminários estaduais e que na sequência, gerarão o seminário nacional. Isso pode ser realizado dentro de um semestre. Tecnicamente, denomina-se tal processo de diagnóstico estratégico. Seria a partir da comunhão dos documentos produzidos nestas esferas é que o planejamento estratégico do agronegócio café nasceria. Pode até ser que não ficasse perfeito, mas minha intuição me diz que ele será infinitamente mais eficiente do que documentos como a Agenda Estratégica do Café, que foi construída em duas reuniões em Brasília e acabou sendo engavetado. Esse procedimento de articulação com as bases fomentaria a eficiência na gestão dos interesses públicos.
O setor cafeeiro brasileiro está a cada dia cavando a sua própria sepultura porque a parte que é fundamental para o bom andamento do processo, no caso, a política cafeeira, não consegue atingir os patamares de eficiência e profissionalização nas áreas de gestão pública e de inteligência, necessários para viabilizar efetivamente a expansão da plataforma da cafeicultura nacional em todos os elos da cadeia.
Ontem, 03 de maio de 2012, li três materiais interessantes: um artigo publicado na HSM Management, ‘Qual o valor da marca Cafés do Brasil?’, outro intitulado ‘O grande mercado para as origens brasileiras’ e o relatório da FIESP/ICONE, o Outlook Brasil 2022 – Projeções para o Agronegócio. Estes três documentos prestam-se para avaliarmos as resultantes das escolhas políticas do setor cafeeiro e a questionável eficiência do modelo de administração pública adotado pelo setor.
A primeira vez que conheci a estratégia de marketing ‘Um país, muitos sabores’, foi numa palestra do Dr. Carlos Brando, em Três Pontas, em 2003. Nesta época ele estava com os cabelos pretos e eu tinha 25 anos. Hoje, provavelmente, ele está com os cabelos brancos e eu com 35 anos. Estes dez anos passaram num estalar de dedos.
Fazendo uma análise pontual, se o Brasil ao longo dessa década que passou, tivesse apostado naquele projeto, pelo menos já teríamos uma inserção de marcas diferenciadas junto ao mercado internacional. Mas como na cafeicultura existe o sério problema da falta de continuidade de qualquer projeto (o único que se salvou até agora foi o do desenvolvimento da atividade de barista e de consumo fora de casa, porque isso interessa seriamente para quem vende café industrializado. Logo, não pode ser enquadrado como política, mas sim como ação da iniciativa privada), nenhuma evolução efetiva neste campo foi atingida. O consumo do café brasileiro somente chegará a 20 milhões de sacas neste ano, porque a ABIC investe, com recurso privado, há mais de duas décadas no Selo de Pureza. Notem que existe continuidade do processo que conduz a um crescimento vegetativo, mas sustentado.
Se não fosse a iniciativa privada tomar tal iniciativa, o brasileiro, sem dúvida, já seria o maior consumidor de chá verde do planeta.
A parte disso existe o discurso sobre a sustentabilidade, que vem se acirrando em função de questões como a intensificação da demanda de cafés certificados, em particular com o selo do Código Comum para a Comunidade Cafeeira.
Este item é interessante, à medida que ele acena que existe séria interferência internacional na política cafeeira brasileira. Li as entrevistas do CEO da Illy em sua última visita ao Brasil e me senti constrangida como cidadã brasileira. Eu vivo na
6ª Economia do Mundo ou estou enganada? Se estiver residindo em algum país subdesenvolvido, com governo e instituições totalmente desarticuladas, despido de constituição e regime presidencialista, alguém, por favor, me avise, porque estou sendo enganada e eu preciso me alinhar com a realidade. Aliás, tenho que simplesmente jogar toda a minha biblioteca fora.
Até quando o Brasil, no campo da cafeicultura, viverá em um nível de desorganização tal, a ponto de permitir que estrangeiros cheguem ao nosso território, dizendo o que temos de fazer? Ditando quanto temos de produzir ou imputando a nós a responsabilidade plena de abastecer o mundo? Foi para isso que o Brasil brigou de joelhos para conseguir um assento na direção da Organização Internacional do Café?
Estes aspectos morais têm de ser revistos.
O setor cafeeiro brasileiro, para começar, tinha que ter vergonha de ver uma multinacional financiando universidades brasileiras. Os grandes intelectuais do país que são especializados em café já estão expatriados dentro de seu próprio território, porque o setor que tem fundo único jamais enxergou na pesquisa socioeconômica uma necessidade estratégica. Na verdade, a pesquisa neste campo, que nos editais de alguns estados aparece como área de investimento a fundo perdido, tem outras finalidades, como o caminho mais curto para o financiamento de campanhas.
Neste campo, vale expor a outra grande fragilidade da política cafeeira brasileira: a organização da sua área de estudos estratégicos, de seu aparato de inteligência. Por que o setor cafeeiro não contrata o ICONE? Por que a cafeicultura não está participando do Outlook Brasil 2022?
O único estudo do setor cafeeiro que faz uma projeção da cafeicultura até 2020 é uma análise estratégica que produzi e foi publicada em janeiro de 2010 no Revista Cafeicultura. É um documento caseiro, mas estou muito feliz porque estou acertando os números já por dois anos consecutivos.
A síndrome da falta de eficiência do setor cafeeiro neste campo está relacionada a uma questão simples: falta de profissionalização. Seriedade, profissionalização não dão votos, é um produto da técnica. Não ajuda no desvio de erário público.
Não gera escândalos publicáveis na Época. Não compra o caráter de ninguém.
Gera sim, resultados, ações, respeito na comunidade internacional, crescimento, desenvolvimento, emprego e renda, amplia o orgulho de ser brasileiro porque mostra nossa capacidade. Ou seja, faz uma nação como a nossa de fato, ser a melhor do mundo.
Os setores agroindustriais que já entenderam essa diferença profissionalizaram seu setor de inteligência e simplesmente estão dez passos à frente da cafeicultura, que continua a viver da névoa remanescente do glamour que existia antes da quebra da
Bolsa de Nova Iorque, em 1929.
Não desanimando os moços que escreveram entusiasticamente sobre o marketing e sustentabilidade, imprimo aqui que esta, definitivamente, não é a meta do agronegócio café brasileiro. Notem que depois do CONAR, nem o Incrível Café sobreviveu.
Voltando para meu canto.
*Mara Luiza Gonçalves Freitas é professora de administração.