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13/10/2011

 

Sobre chuvas, adubos e paradigmas

Para grande parte das regiões cafeeiras ocorreu, pela primeira vez nesta primavera, chuvas dignas de nota.

 

 

O volume foi considerável, ao redor de 40 mm, e abre espaço para muitas operações agrícolas que estavam na dependência de precipitações para começar.

Muitos produtores começaram a buscar seus fertilizantes, que estavam armazenados nos pátios das cooperativas. Aqueles que já tinham o produto na fazenda, com o prognóstico de mais chuvas durante o resto da semana, já começam a aplicá-lo.

Este movimento me faz recordar as recomendações do Dr. Eurípedes Malavolta que muitos de seus alunos e seguidores já colocam em prática: “em setembro a planta está em franco desenvolvimento: por isto o adubo já devia estar no chão, não no barracão”.

Em trabalho publicado em 2002, Malavolta e outros fundamentam sua recomendação: as flores representam forte dreno – estruturas das plantas com força para “puxar” o carreamento de nutrientes e produtos da fotossíntese. São responsáveis pela extração de 20% do nitrogênio, 30% do fósforo, 22% do potássio, 26% do cálcio, 52% do magnésio e 19% do enxofre encontrados em ramos de cafeeiros.

Daí conclui-se: se as flores são capazes de extrair grande parte dos nutrientes, é lógico imaginar que tais nutrientes deveriam estar disponíveis à planta antes de sua abertura (antese)! Os próprios autores são enfáticos em suas conclusões: “a adubação do cafeeiro deve começar antes do florescimento”(!!!).

Outro ponto importante: quanto mais baixa e quente a região, mais rápido é o crescimento dos frutos e seu acúmulo de nutrientes (LAVIOLA et.al.,2006).

Por outro lado, há ainda grande polêmica em torno do tema de adubações antecipadas. Muitos técnicos argumentam que as raízes não estão bem formadas, pois parte significativa morre durante a seca. A premissa parece verdadeira, mas não concordo em absoluto com a conclusão. Realmente, ao que tudo indica, parte das raízes absorventes morrem ou reduzem significativamente sua atividade. Entretanto a retomada do seu crescimento é mais rápida quando os nutrientes estão prontamente à sua disposição, principalmente nitrogênio, fósforo e cálcio.

Mas como conciliar adubação com escassez de chuvas que antecede a florada? Em cafés irrigados isto não é problema, a fertirrigação é prática corrente e dominada. Nos cafeicultores irrigantes recomendamos começar a fazê-la já em agosto. E quanto aos cafeicultores de sequeiro?

Respondo: 1º: utilizando, já em setembro, fertilizantes que não sejam propensos às perdas por volatilização; 2º: antecipando a adubação de parte destes nutrientes para o período final das águas (janeiro a março). Grande parte dos nutrientes aplicados nesta época ficará armazenada em estruturas da planta (folhas, raízes e caule) e será disponibilizada aos pontos de crescimento no início da estação chuvosa!

Portanto, aos que já adubaram, parabéns! Aos que ainda não o fizeram, pé na tábua!

 

Guilherme Rosa

Engenheiro Agrônomo, consultor em cafeicultura e sócio da ViaVerde Consultoria Agropecuária em Sistemas Tropicais

e-mail: guilherme.rosa@viaverde.agr.br 

site: www.viaverde.agr.br

 

REFERÊNCIAS:

LAVIOLA, B.G.; MARTINEZ, H.E.P.; SALOMÃO, L.C.C.; CRUZ, C.D.; MENDONÇA, S.M. Acúmulo de nutrientes em frutos de cafeeiro em quatro altitudes de cultivo: cálcio, magnésio e enxofre. R. Bras. Ci. Solo, 31: 1451-1462, 2007.

MALAVOLTA, E.; FAVARIN, J.L.; MALAVOLTA, M.; CABRAL, C.P.; HEINRICHS, R.  Repartição de nutrientes nos ramos, folhas e flores do cafeeiro. Pesquisa Agropecuária Brasileira, 37, 2002. http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100-204X2002000700016&bloqueio=sci_arttext

 

 

 

 

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